ARTIGO

17/10/2013

Denuncismo desenfreado

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A palavra denuncismo posta no título, não existe no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP), mas muitos certamente a conhecem (e o pior, colocam-na em uso), tornando-a cada vez mais presente, pulsante e atuante no dia-a-dia do convívio em sociedade.

No iDicionário Aulete aparece denuncismo como sendo a  “Publicação nos meios de comunicação de pretensos fatos ou ocorrências não apurados com o rigor da ética jornalística e que, ao provocarem escândalo e sensacionalismo, geralmente visam a atingir a reputação de um indivíduo, de um grupo ou mesmo dos poderes constituídos”. O denuncismo, normalmente, interessa mais aos culpados e agride os inocentes e a Justiça.

Mas o denuncismo não é só um subproduto do sensacionalismo infame (e cruel) do mau jornalismo. Denuncismo tem a ver com o nosso mundo pós-moderno, esse admirável mundo novo (Aldous Huxley), em que certos princípios éticos jazem derrotados. É nesse contexto que alguns tentam, muitas vezes com sucesso, subjugar, manipular, pressionar, achincalhar ou prejudicar o outro com representações, queixas, reclamações, ações, notificações e denúncias infundadas, sem lastro, inverídicas, abusivas e com o (injusto) intuito de satisfazer egoísticos interesses inconfessáveis, sem temer constranger, humilhar ou deturpar a imagem, a intimidade, a honra, a credibilidade, a profissão, os títulos, enfim, a dignidade alheia.

O denuncismo não é somente fruto da má-fé, da deslealdade, da improbidade, da falta de princípios, senso de Justiça e valores sólidos, mas também de uma suscetibilidade exagerada e manejada a esmo, que provém de pessoas que se apresentam com essa lamentável característica (e com lastimável assiduidade). Muitos existem que são extremamente sensíveis e atentos aos seus exclusivos interesses (alguns escusos), mas absolutamente indiferentes no que toca a um mínimo de respeito e consideração aos bens da vida alheios.

Qualquer picuinha, desassossego, desgosto banal ou contrariedade menor, têm sido potencializados em seu grau máximo. Muita gente não tem mesmo a capacidade (e a dignidade) de intuir, de perceber mesmo, que na vida há percalços, dificuldades, opiniões divergentes, e que é preciso conviver com as diferenças, com o pluralismo, com o outro, com o não...

Tome-se o mundo jurídico como singelo exemplo: o que se nota hoje é uma triste (e por vezes inescrupulosa) enxurrada de representações/reclamações/demandas contra juízes, advogados, promotores, defensores públicos, delegados de polícia, boa parte delas  incentivada pelos próprios profissionais (?) do Direito, e, percebe-se, boa porção delas, manejada apenas como inescondível vingança, com o fito de simplesmente incomodar. Nascem tais reclamos daquela censurável e exagerada sensibilidade, que atormenta os seres, em particular alguns profissionais. O egocentrismo e o estrelismo, quando brotam, dilaceram o dever de urbanidade e respeito ao outro.

Houvesse mais ética, firmeza, consciência de grupo, alteridade, educação, e muitos dos falsos problemas que assolam o mundo (mais ainda o Brasil) seriam eliminados (ou ao menos minimizados).

É pertinente lembrar: para que a estrela de cada um brilhe, não é preciso apagar ou diminuir a do outro...

Como afirma Gilberto Dupas, “Os espaços públicos estão coalhados de pessoas zanzando com telefones celulares, falando sozinhas em voz alta, cegas às outras ao seu redor. A reflexão está em extinção” (O mito do progresso. São Paulo: Editora UNESP, 2006, p. 275).

O mundo e a vida que nele se contém, por certo seriam melhores, se cada qual se dispusesse, com um mínimo de contemplação e critério, a evitar os exageros.

 

Daniel Marques de Camargo é advogado, professor universitário, Mestre em Ciência Jurídica e escritor.

Autor: Daniel Marques de Camargo

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COMENTRIOS

  • 17/10/2013Aleandro

    Denuncismos, ento este o nome. Parabns Professor.

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