ARTIGO

23/06/2013

Nenhum partido vai ganhar com protestos, afirma FHC

Compartilhe este artigo

A trilha sonora na sala do apartamento do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, no final da tarde de quinta-feira, era composta por sirenes de carros e pelo barulho dos helicpteros que passavam a caminho dos protestos na avenida Paulista. Aos 82 anos, completados na semana passada, o presidente est lanando o livro "Pensadores Que Inventaram o Brasil" (Companhia das Letras), sobre intelectuais que elaboraram grandes teorias sobre o pas. Mas ele diz que nenhum terico do passado poderia entender o que acontece hoje nas ruas. Mais do que isso, ele acredita que os polticos no tm condies de compreender a "insatisfao genrica" da populao e nem de capitaliz-la. "Tenho dvidas se os partidos vo ter capacidade de captar tudo isso e transformar ao menos sua mensagem", diz Cardoso. Leia a seguir trechos da entrevista. O SR. ACABA DE LANAR UM LIVRO SOBRE INTELECTUAIS QUE FIZERAM GRANDES INTERPRETAES DO BRASIL. COMO ESTES PENSADORES PODEM AJUDAR A ENTENDER O QUE EST ACONTECENDO NO PAS? Fernando Henrique Cardoso - Eles no entenderiam e nem poderiam entender. Vivamos num mundo das classes organizadas, ou desorganizadas querendo se organizar. Estas so manifestaes que no so expresses de camadas organizadas. A primeira manifestao disso que eu vi foi em Paris em 1968. E isso ainda sem a internet. QUAL A MAIOR MUDANA? Muda muito. Aquele era um movimento a favor da autonomia e da liberdade. Na Frana, em 1968, eles no tinham linguagem para expressar o sentimento que tinham. Ou era foice e martelo, ou bandeira negra, e cantavam a "Internacional Socialista", que diz "De p, famintos da terra". No tinha faminto nenhum ali. Mas a Frana tinha sindicatos, partidos, organizao. Agora, com a internet, e com a fragmentao maior de classes, diferente. O comando quase inexistente, vai se formar na rua. As demandas so muitas, o pretexto pode ser qualquer um. Esta situao me lembra um ensaio meu dos anos 1970 chamado "A teoria do curto-circuito". VIVEMOS UM CURTO-CIRCUITO? Sim. O preo de nibus foi um estopim. Ali est desencapado um fio. Mas a pega fogo em outros. No foi a classe dominada. Foram os jovens. So eles que esto gritando a. No foram os que no podem pagar. Esto gritando contra a injustia em geral, vagamente. Juntam tudo: PEC 37, a corrupo, o custo dos estdios, dos transporte. QUAL O PAPEL DOS LTIMOS GOVERNOS NISSO? Nesses ltimos anos, com a ascenso do Lula, o que ele props como ideologia? Vamos consumir o que bom. No por que eu uso um macaco que no posso ter um automvel. Criou um estilo de crescimento que o oposto da China. L fazem poupana e investem. Aqui, consome-se sem investir. A rua est dizendo: no basta o consumo, quero mais. No h razo objetiva. No tem desemprego, ditadura ou opresso. No mundo rabe, Espanha ou Itlia. A ESPANHA E A ITLIA ESTO VIVENDO UMA GRANDE CRISE DE REPRESENTAO POLTICA... Aqui tambm. As pessoas no identificam nas instituies os canais que as levem ao que eles querem. Nenhum destes movimentos recentes gerou novas institucionalidades. O apelo do movimento aqui no a ningum. No mundo rabe querem derrubar o governo. Aqui no. VIVEMOS ALGO PRXIMO DO QUE PASSOU NAS PERIFERIAS DE PARIS EM 2005? L teve segregao racial e religiosa. Aqui no isso. Quem est na rua no a periferia. Aqui est todo mundo na rua. No so sindicatos, no so grupos de trabalhadores organizados. H uma insatisfao genrica. POR QUE A INSATISFAO? Porque a vida pesada nas grandes cidades. H sofrimento com o transporte, a poluio, a segurana. So problemas que afetam a todas as classes. O pobre leva duas horas no nibus sofrendo. O rico fica irritado porque fica uma hora no carro. O rico est cercado de guardas. O pobre no tem guarda nenhum, mas os dois esto com medo. Os governos recentes agravaram muito isso ao estimularem o consumo de carro. E deixaram a bomba na mo dos prefeitos. Mais carro e crdito. Talvez tenha a tambm o comeo da inflao e do esgotamento do crdito, agindo por baixo disso tudo. Mas o foco um mal estar inespecfico. No acho que qualquer partido possa, deva ou consiga capitalizar o movimento. O SR. ACREDITA QUE ESTE MOVIMENTO VAI MUDAR A MANEIRA DE FAZER POLTICA? Alguma mudana ocasiona, mas no sei se os partidos vo ter capilaridade para sentir tudo isso e transformar ao menos sua mensagem e a ligao com fenmenos como as mdias sociais. O SR. MENCIONOU EM ENTREVISTA RECENTE QUE TINHA DVIDAS SE AS INTERAES EM MDIAS SOCIAIS PODERIAM SER CONCRETIZADAS EM AES POLTICAS. COMO AVALIA ISSO AGORA? No estamos vendo aes propriamente polticas. O grande terico disso o socilogo espanhol Manuel Castells. Diz que a conexo entre redes e vida institucional no se processou, e ele tem dvidas se vai se processar. Nenhum partido no Brasil tem ligao com isso. Os manifestantes no se sentem representados pelos partidos e nem sei se querem. COMO O SR. VIU A IMAGEM DO FERNANDO HADDAD JUNTO COM GERALDO ALCKMIN? Acho compreensvel. So smbolos do que est a. como a vaia da Dilma. LULA TAMBM FOI VAIADO NA ABERTURA DOS JOGOS PAN-AMERICANOS... Mas foi diferente. No caso da Dilma, o que surpreende no a vaia, mas a durao dela. Ao citar nome de autoridade em estdio normal que haja vaia. Mas vaiaram muito tempo. No sei se contra a Dilma, em si, mas contra o que est a. H UM DESENCANTAMENTO? Sim. As pessoas melhoraram de vida, mas o governo to propagandista de uma maravilha virtual que h desencantamento. Este governo to favorvel propaganda que todos os nomes de programas de governo so "marketagem": "Minha Casa, Minha Vida", "Minha Casa Melhor". Criaram uma camada virtual de bem-estar que agora o pessoal questiona. No sei se h desencantamento, mas h um descolamento. O dia a dia mais duro do que o que o governo diz. No h desemprego, mas no houve melhoria na qualidade do emprego, ento a renda, mesmo com as melhorias, pequena, insuficiente para fazer frente ao consumismo propagado. Por isso as pessoas entram no crdito. O governo est dando mais crdito, mais crdito, e endividando os bancos pblicos. O que foi correto na crise virou poltica permanente. E A CRISE DE CRDITO VAI ESTOURAR ANTES OU DEPOIS DA ELEIO DE 2014? Quem sabe. Quem sabe... ALGUNS CIENTISTAS POLTICOS DEFENDEM QUE QUANDO A OPOSIO FRACA A SADA IR PARA AS RUAS. O SR. CONCORDA QUE H UM VAZIO NA OPOSIO? No h vazio. Basta assistir a TV Senado. A oposio violenta o tempo todo. S que morre ali. No passa para a sociedade, no tem eco. Houve uma "parlamentarizao" da vida poltica. Alm disso, o governo fechou o debate. A Lei da Reforma do Petrleo no foi discutida por ningum. A Dilma mudou a Lei da Minerao e ningum sabe disso. E como este Congresso ficou fechado em si mesmo no temos mais regime de coalizao. Agora Repblica Velha: governo e oposio. No foi a oposio que diminuiu, foi tudo junto. A rua, nisso, pode ser que tenha ganho. MAS EXISTE UMA POSSIBILIDADE DOS PRPRIOS PARTIDOS SE REINVENTAREM OU SURGIRO NOVOS ATORES? Espero que se reinventem. Mas os partidos precisam reestabelecer vnculos com a populao. Para comear, tm de falar o que a populao fala. Falei sobre drogas. Nenhum partido fala. Este um tema real. O que so os temas reais? Um o transporte. Outro o direito do consumidor. Eu preferiria, talvez porque sou antigo, que existissem partidos capazes de captar e dialogar com estes problemas. Onde que est o debate no Brasil? Na mdia, e s. E o governo ataca quem? A mdia. E A MDIA SOCIAL CUMPRE UM PAPEL IMPORTANTE PARA O DEBATE? para o debate, eu no sei. Para a mobilizao, no tenho dvida. O SR. ACOMPANHA O TWITTER, O FACEBOOK E OUTRAS MDIAS SOCIAIS? Twitter no. Facebook, um pouco. E alguns blogs. No tenho tempo para acompanhar. O SR. BRINCA EM SEU LIVRO QUE DESISTIU DE ESCREVER O LIVRO "GRANDE INDSTRIA & FAVELA". AO QUE PRETENDE SE DEDICAR AGORA? Desde que sa da presidncia publiquei seis livros em dez anos. Um deles, escrevi em ingls, o "The Accidental President of Brazil", que agora vou traduzir e lanar aqui no fim do ano. Mas o que ainda tenho de fazer? Ter, no tenho que fazer mais nada. Tenho 82 anos. Sendo generoso comigo mesmo terei mais cinco anos teis. Depois, cansa. Anotei, quando estava na Presidncia, quase todos os dias as coisas que achava. Tenho de deixar isso preparado para uma edio post-mortem. So umas 15 mil pginas. O nico projeto que tenho no momento este, que j retomei. No penso em fazer outros livros. EM SEU LIVRO RECENTE, "PENSADORES QUE INVENTARAM O BRASIL", O SR. TRATA DE GRANDES RETRATOS DO BRASIL. POR QUE NO SE FAZ MAIS INTERPRETAES GERAIS DO PAS? Como disse um rapaz que no conheo pessoalmente, o Marcos Nobre, este tipo de interpretao no cabe mais. Por trs destes livros, havia um projeto de nao. Estavam todos tentando ver como se fazia disso aqui uma nao. Hoje ningum duvida: isto aqui uma nao. J no tem tanto uma obsesso sobre quem somos, por que somos. Ns somos. Estamos nas ruas, mas somos. J se sabe que no Brasil o Estado vai ser sempre importante, que o mercado vai ser sempre importante e que a sociedade civil crescentemente importante. J no tem dvidas sobre quem ser o propulsor. MAS EM UM DOS TEXTOS INCLUDOS NO LIVRO O SR. FALA QUE FAZ FALTA ESTE TIPO DE LIVRO PANORMICO SOBRE O PAS... Falei isso numa de 1993, h 20 anos. At ali, ainda havia a ideia do projeto da nao. Era uma viso de um algum iluminado que prope a nao. Isso antigo. O pas j est a e ningum vai propor. Ele se faz e vai se fazendo. No acho que seja cabvel mais este tipo de grandes interpretaes. A nao se diversificou muito e a universidade hoje estuda muito mais do que no passado muitas coisas. O SR. EST S VSPERAS DE VOLTAR A DISPUTAR UMA ELEIO, DEPOIS DE MUITO TEMPO. VAI CONCORRER NA SEMANA QUE VEM A UMA CADEIRA DA ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. POR QUE O SR. DECIDIU CONCORRER? H muito tempo eu resistia aos convites. Primeiro porque no sou literato, at que me convenceram que a Academia no era s para escritores. Ainda assim no queria, para no politizar. Agora estou longe do poder h tanto tempo, e todo mundo sabe que no quero mais o poder, que resolvi aceitar concorrer. O SR. VAI PARTICIPAR HOJE NAS MANIFESTAES? No (risos). Talvez eu v at a rua. Mas no d mais para ir a manifestaes. Seria mal interpretado imediatamente. OURINHOSNOTICIAS COMPLETO, POR ISSO LDER EM AUDINCIA!

Autor: Folha de So Paulo - CASSIANO ELEK MACHADO

Comente esta notcia
Deixe seu comentrio abaixo:

termos de uso

COMENTRIOS

PUBLICIDADE