ARTIGO

23/05/2013

Evanglicos progressistas defendem gays e direitos iguais

Compartilhe este artigo

Eles so evanglicos, frequentam os cultos, leem a Bblia e lutam para defender suas opinies pessoais mesmo que elas distoem do que pensa a maioria de seus irmos em f. Patrick, Morgana e Elias so considerados evanglicos progressistas, que se declaram contra a violncia aos homossexuais, pregam a igualdade de direitos entre homens e mulheres e adotam uma postura mais questionadora sobre temas polmicos, no sem enfrentar preconceitos dentro e fora do grupo ao qual pertencem. Infelizmente, a sociedade v o evanglico como conservador, limitado intelectualmente e manipulvel. Mas esta no uma imagem totalmente verdadeira, afirma o comentarista esportivo Elias Aredes Junior, evanglico praticante. A comunidade evanglica no Brasil conta com mais de 42 milhes de pessoas, de acordo com dados do IBGE. O crescimento do nmero de fiis expressivo eram 15,4% da populao no ano 2000 e chegaram a 22,2%, em 2010. Embora estejam todos enquadrados no mesmo grupo, h denominaes bastante distintas. Os ensinamentos so diferentes em uma igreja da corrente histrica, como a Batista ou a Metodista, em comparao a uma pentecostal, qual pertence a Assembleia de Deus, por exemplo, ou a uma neopentecostal, como a Igreja Universal do Reino de Deus. Com doutrinas to diferentes, alguns evanglicos buscam comunidades mais abertas a questionamentos e tambm participam de movimentos progressistas, para defender interpretaes e pontos de vista nem sempre aceitos nos cultos. Conhea a histria de trs jovens cristos que se incluem neste grupo. Formado em cincias sociais, Patrick Timmer, 27 anos, trabalha como secretrio-geral na Aliana Bblica Universitria do Brasil, em So Paulo. De famlia evanglica, membro da igreja Comunidade de Jesus, e se considera um progressista. O termo progressista pode significar muita coisa. Para mim, no ter uma relao de submisso incondicional com a figura do pastor ou do lder religioso, define. Para Patrick, tudo o que ouvido no culto precisa passar pelo crivo das escrituras e ganhar uma interpretao coerente. Ele acredita que todo evanglico deve ter uma postura crtica e saber buscar respaldo na prpria Bblia. preciso analisar o contexto, procurar literaturas de apoio, conversar com outras pessoas. O dilogo e o debate sempre ajudam na construo de uma democracia saudvel, afirma. Ele explica que, em muitos casos, trechos da Bblia so usados para justificar atos de opresso ou abuso, especialmente contra as mulheres. Certas leituras podem levar a uma interpretao equivocada de superioridade de gnero. Mas a submisso para justificar a violncia no tem base bblica, defende Patrick. Sobre o homossexualismo, comumente alvo de crticas de lderes religiosos e dos polticos da bancada evanglica, Patrick diz que preciso mudar esta polarizao de evanglicos versus gays. Para ele, violncia e intolerncia so inaceitveis, sejam por racismo, machismo, xenofobia ou homofobia. A FAVOR DE UM ESTADO LAICO A missionria Morgana Boostel, 26 anos, tambm se considera uma evanglica progressista. Ela secretria-executiva da Rede Fale, uma organizao internacional ligada a vrias congregaes evanglicas, que atua em campanhas contra injustias sociais. Em maro deste ano, a Rede publicou uma carta aberta, assinada por 173 pastores e lderes evanglicos, se posicionando contra a permanncia de Marco Feliciano na presidncia da Comisso de Direitos Humanos e Minorias (CDHM). Dezenas de comentrios na prpria pgina da rede rechaaram a opinio dos pastores. Todos devem ter os direitos garantidos, independentemente da sua histria ou trajetria familiar, defende. Evanglica desde criana, ela j frequentou a igreja Batista e hoje membro da Comunidade Anglicana Neemias, na cidade de Vitria (ES). Morgana defende fervorosamente a liberdade de crena e se mostra contrria interveno da Igreja em aes do governo. Estado laico no a ausncia de elementos de f, mas a possibilidade de express-la da forma que cada um considere importante. Para ela, assim como a opo religiosa, todas as escolhas devem ser respeitadas. Cada um responsvel por decidir o que achar melhor para a prpria vida, at mesmo quando se trata de questes sexuais. inadimissvel qualquer tipo de violncia contra homossexuais. Isso inclui o preconceito, pois [o preconceito] incita a violncia. EM DEFESA DA DIVERSIDADE O comentarista esportivo Elias Aredes Junior, 40 anos, sempre foi de famlia evanglica. Ainda adolescente, aprendeu com os tios a questionar os valores pregados nas igrejas que sempre frequentou. Comecei a despertar para temas de justia social e igualdade, o que me levou a participar ativamente de movimentos estudantis, conta ele, que hoje tambm frequenta reunies e encontros do Movimento Evanglico Progressista. Elias, que faz parte de uma igreja na cidade de Campinas (SP), considera boa parte da comunidade evanglica bastante conservadora. Muitas vezes, a igreja no consegue lidar com este cenrio multifacetado. E isso no bom porque no contempla a diversidade. Quem no estiver dentro de um modelo preestabelecido fica de fora, diz. Ele cita um exemplo que ouviu de um pastor em outra denominao religiosa, que frequentava anteriormente. Durante um culto, o lder disse que, ao ver uma passeata gay, teve vontade de jogar o carro contra a multido. Achei aquilo horrvel. Posso no concordar com a conduta gay, mas o Estado tem a obrigao de assegurar-lhes todos os direitos, inclusive o de manifestao, opina. Para Elias, o problema de lidar com a diversidade vai alm da questo gay, incluindo tambm as novas formaes familiares. Vi vrios casos de preconceito contra mes solteiras. Ento, quando uma mulher solteira ou separada, ela no pode ser considerada famlia pela igreja?, questiona. Para mudar este cenrio e promover a incluso, Elias acredita que cabe aos prprios evanglicos lutar pelo que acreditam e adotar lderes e representantes que estejam mais de acordo com o perfil de cada um. O pastor da igreja que frenquento aberto ao dilogo e respeita o que eu penso. Uma nobre e gratssima exceo neste cinturo ditadorial existente na comunidade evanglica brasileira, afirma.

Autor: IG

Comente esta notcia
Deixe seu comentrio abaixo:

termos de uso

COMENTRIOS

PUBLICIDADE